Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Adeus Amigo!...



  Fitei-o. Com a mão na cara, cofiando a barba de alguns dias, o meu amigo bebia o café com o olhar perdido no horizonte. Naquele café, onde se mirava a encosta sulcada de casario, ouvi-o durante anos.

 Casara relativamente cedo. Casara por amor. Adorava a mulher acima de tudo. Os dois lutaram por uma vida que lhes fizesse esquecer as amarguras do passado. Vieram os filhos e a vida foi, pouco e pouco, mudando.

 Chegado a casa, depois de um dia de trabalho, ouvia as lamúrias da mulher, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre a vida. E ele queria era um momento a sós com ela. Queria poder amá-la até exaustão, no carro, na cama, na banheira, fosse em que lugar fosse. Sem tabus, sem leis.

 Deitavam-se, e a conversa continuava. Ele bem procurava excitá-la mas nada! Cansada ela virava-lhe as costas e ele fazia amor com o vazio.

 De vez em quando fazia movimentos, sabendo que ela ainda estava semi-acordada, para que ela se voltasse e fizesse amor com ele, mas o corpo não se voltava, o corpo não bulia e ele fazia amor com o movimento.

 No banheiro, enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo, excitado, fazia amor com a mão.

 Quando, após semanas, ela lá se lembrava que havia outras coisas para além de tachos e panelas, de luzes apagadas, ele fazia amor com o escuro.

 No carro quando ia com ela e a olhava, desejoso de fazer amor, fazia amor com o pensamento.

 Isto durante anos. Muitas vezes o meu amigo me confessou que, quando ia de carro, a vontade que tinha era guinar o volante, acabar com tudo, acabar com a vida.

 Mas pensava essencialmente nos filhos e na mulher que nunca deixou de amar.

 Abria-me os seus sentimentos, calava-se e eu respeitava os seus silêncios. Ele não queria conselhos, queria alguém que o ouvisse!...

 … Um dia, sozinho, vai até ao penedo onde me dizia que costumava ir, ouvir as ondas, ouvir o bramido, ouvir o rugido do mar. Ali ficava entregue aos seus pensamentos e pensar se a vida assim valia ser vivida.

 Olhou o azul profundo. Aqui e ali, ondas iam e vinham, gotículas de espuma batiam-lhe mansamente no rosto, num gesto de carinho, numa entrega total.

 Despiu-se, em pleno dia, de braços abertos atirou-se àquelas águas e, pela última vez fez amor… com a Morte!


 Adeus amigo!...

publicado por marius70 às 16:51
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Janeiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

posts recentes

Eu, escriba!

Morreu o "canastrão"

Mudança de hora

Madonna

A "mãe" natureza

arquivos

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Março 2016

Fevereiro 2014

Novembro 2013

Agosto 2013

Outubro 2012

Julho 2011

Maio 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Maio 2009

Janeiro 2009

Outubro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Maio 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Dezembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

tags

todas as tags

links

SAPO Blogs

subscrever feeds