Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

O Escritor...




  Por vezes pensamos que nascemos em épocas erradas. Hoje os sexos estão pouco diferenciados. As mulheres ocupam muitos empregos que eram “só” para homens. Fumam, bebem e dizem asneiras como qualquer arruaceiro. Não sei se é uma forma de ser ou de estar mas não me parece ser o melhor caminho para uma mulher que se quer com “glamour”, elegância, um toque de feminilidade e não de cuspir para o chão como se vê actualmente.

  Quando era pequeno tinha uma visão diferente do mundo das mulheres. Vivia na ilusão que elas eram diferentes de nós em muitos aspectos até no ir à casa de banho. Então lia muito sobre a época em que havia uma subtileza no comportamento da mulher, no andar, na sombrinha, no cavalheirismo de um Eça, no encanto da mãozinha dada do casal a percorrer os jardins. Então imaginava e...

  Há muitos anos atrás, quando pensava que viria ser escritor, o início do meu romance começava assim:

  «Mademoiselle Butterfly (influências da ópera de Puccini), sentiu o olhar do jovem na semi-obscuridade da Igreja. Reparara nele quando entrara. Um ligeiro rubor aflorou-lhe a face quando se apercebeu que a sua presença também não passara despercebida. Enquanto a missa decorria, os seus pensamentos vagueavam pela abóbada da Igreja, o seu peito arfava tendo que disfarçar a sua ansiedade com vários movimentos de leque. Fim da missa. Ouve-se o restolhar daquelas saias em forma de sino dirigindo-se para a saída.

  Sem se voltar, sente que ele está atrás dela. Abre a sombrinha para impedir que o sol lhe atinja o alvo rosto. “Distraidamente” deixa cair o lencinho que ele apressa-se a recolher e, dirigindo-se-lhe com uma pequena vénia, entrega-o fazendo questão de a acompanhar pelo jardim, onde outros casais deambulam aproveitando o dia magnífico que a Natureza lhes tinha oferecido.


  Aqui parei. Não que me faltasse imaginação para continuar mas, porque razão teria de ser sempre um lencinho a cair e não um chapéu ou até a sombrinha?

  Estava na “Belle Époque”, e os contos sobre essa época começavam sempre pelo lencinho e não por outra peça de vestuário caindo. Os “coulottes” seriam difíceis pois com os espartilhos que usavam e pela cinturinha de vespa nunca essa peça cairia o que, caso acontecesse, seria um começo desagradável e algo vergonhoso, para um livro sobre uma época de ouro que fez de Paris, a Cidade Luz, o centro cultural da Europa.

  E assim desfez-se um sonho, o sonho de ter sido escritor e tudo porque nunca consegui livrar-me da queda do lencinho.

  Não me livrei da queda nem do facto de pensar que nasci na época errada e, de vez em quando, transporto-me para os jardins dos Jerónimos, ali me vejo pegando o lencinho que uma "jeune", de saias e frou-frous, deixou cair. Um eterno romântico.

publicado por marius70 às 03:06
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