Terça-feira, 4 de Outubro de 2005

A mais bela história de Amor

 Esta lenda, dedico-a a todos aqueles/as que, acreditando ou não numa religião, não deixam de fazer bem ao próximo. A lenda é extensa mas vale a pena.

 O Bodhisattva percorria o campo em procura daquilo que não sabia. Caminhava a passos lentos, ora perdido em pensamentos, ora interessando-se pela natureza, sumptuosamente vestida com as cores do infinitamente inteligente.
De repente, viu uma pomba, tão cansada de sulcar os ares pesados que estava prestes a cair. Num último esforço, ela conseguiu chegar junto do sábio e deixou-se cair aos seus pés.
Suplico-te, Bodhisattva – gemeu -, salva-me! Desde esta manhã que um abutre me persegue; estou esgotada e só tenho esperança em ti. Vê, lá vem o abutre... está ali!
Com efeito, um enorme pássaro negro aproximava-se do sábio, mas voava também com tanta dificuldade que fazia pena ver o seu esgotamento.
O Bodhisattva pegou na pomba, escondeu-a na túnica, e murmurou-lhe com toda a sua ternura fraterna:
- Sossega o teu coração, pombinha. Eu sou o Bodhisattva, ofereço-te a hospitalidade do meu peito e não tens nada a temer.
Foi então que o abutre pousou diante dele, as plumas em desordem e visivelmente aflito.
- Pelos deuses - disse ele, já não posso mais, depois desta terrível manhã de caça! Bodhisattva, vi-te esconder a pomba debaixo da túnica, dá-ma depressa, porque me sinto desfalecer...
- Podes estar certo que não ta darei - respondeu o sábio - porque lhe prometi que estaria em segurança, e as leis da hospitalidade não podem ser transgredidas, sob pena de castigo.
- Essa pomba não te pertence - replicou o abutre. - É minha. Quando a agarraste, estava no limite das forças e ia, como seria justo, cair em meu poder. Vamos, dá-me o que é meu!
- Impossível!
- Pensa, Bodhisattva: eu sou um abutre, é esta a minha natureza imposta pelos deuses, que também me impuseram o meu alimento. Forcei a pomba. Ela é a recompensa do meu trabalho de abutre e deves dar-ma.
- Impossível - disse ainda o sábio -, mas com a voz pouco segura. Gostaria muito de te agradar, abutre, mas não ta posso dar pelo preço que a pedes. Volta à tua caça, é o que tens de melhor a fazer!
- Voltar à caça? A tua graça é cruel, Bodhisattva! Não vês que não sou capaz de voar? Se uma raposa me encontra neste estado, estou perdido! Queres que morra à fome ou que seja devorado por um inimigo? Seja, vou morrer, mas a tua consciência sentirá o peso deste crime.
O Bodhisattva não precisou de meditar muito para compreender que o abutre tinha razão, mas a pomba também tinha razão em querer salvar a vida, e ele também tinha razão em oferecer a hospitalidade do seu peito. Como podia ele dizer à pomba que era o salário legítimo do abutre? Deveria deixar o abutre devorar a presa?
O seu coração abrasava-se de piedade, de amor e de cruel incerteza.
Sacrificar a pomba inocente? Impossível!
Sacrificar o abutre inocente? Não!
Só restava uma solução, que iluminou o Bodhisattva.
- Tens razão, abutre - disse ele - não te devo privar do teu salário. Vou portanto oferecer-te com a minha carne aquilo a que tens direito.
Por milagre, surgiram uma balança e uma faca diante do sábio, que, num prato, pousou a pomba e, no outro, um grande pedaço de carne arrancado do seu próprio corpo.
Como o fiel se inclinava para o lado da pomba, o Bodhisattva acrescentou um outro bocado da sua carne, depois mais um outro, e outro... e o fiel inclinava-se sempre para o mesmo lado, os bocados de carne humana não chegavam a pesar tanto como a frágil pomba.
Então, o Bodhisattva subiu para a balança, cujos pratos se equilibraram imediatamente com uma exactidão rigorosa.
Uma vida por outra vida!
O abutre, que tinha contemplado a cena em silêncio, bateu as asas e metamorfoseou-se.
- Eu sou o deus Indra - disse - e queria pôr-te à prova!
Caiu do céu uma chuva de ambrósia que curou o Bodhisattva, a quem o deus anunciou que voltaria a encarnar no corpo do próximo Buda.


 Estamos diante duma bela lição de amor, completa e edificante: uma vida vale outra vida. O amor só vale quando é total e se dirige tanto ao nosso irmão abutre, como à nossa irmã pomba ou ao nosso outro irmão, o grãozinho de areia.
Foi este o ensinamento iniciático do Bodhísattva.


publicado por marius70 às 17:53
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Janeiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

posts recentes

Eu, escriba!

Morreu o "canastrão"

Mudança de hora

Madonna

A "mãe" natureza

arquivos

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Março 2016

Fevereiro 2014

Novembro 2013

Agosto 2013

Outubro 2012

Julho 2011

Maio 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Maio 2009

Janeiro 2009

Outubro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Maio 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Dezembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

tags

todas as tags

links

SAPO Blogs

subscrever feeds