Terça-feira, 10 de Maio de 2005

Os Clones - Peça de Teatro em Quatro Actos



 A sala estava apinhada de gente com duas pessoas; o B e o K.

 Ouvem-se as pancadinhas de Moliére... pum... pum... pum... pumpumpumpum!...

 No fosso, os primeiros acordes de «Requiem para um amigo», versão orquestral da canção de Elton John, «Funeral for a friend».

 A cortina abre-se lentamente. No palco estão, somente, quatro espelhos. No 1.º encontrava-se reflectida a imagem da «coqui». No segundo, a do «Darq»; no 3.º, «Angol» e no 4.º «Marius70».

- 1.º Acto –

  Marius70 entra no palco e dirige-se para 1.º espelho.

- Bom dia meu clone «coqui», então por aqui? Com que então és meu clone e nada me dizias. Lembras-te quando íamos ao Estádio da Luz ver aquelas noites europeias... o quê não te lembras?... o inferno da Luz, as noites mal dormidas e aquela paixão presente sempre que o Benfica ultrapassava mais um obstáculo. Também não te lembras?... mas afinal que clube é o teu? És do Sporting?! Onde moras?!... perto do Porto? Ora, eu moro perto de Lisboa. Tu és do Leão e eu sou da Águia, estás no Norte e eu estou no Centro/Sul. És mulher, eu sou homem, afinal, tu, não és meu clone!

  Fecham-se por momento as cortinas. Quando reabrem só lá estão três espelhos. A orquestra continua a tocar o «Requiem...».

- 2.º Acto. –

  Marius vai em direcção ao 2.º espelho.

- Olá Darq, meu clone! Não é que pensava que a coqui era eu?!... afinal, não! Mas tu sim, não há engano possível. Já estás a dizer que não e ainda agora comecei?! Tu és Águia, logo és do Glorioso como eu. Lembras-te quando tivemos que saltar as vedações do Estádio da Luz, em 16 de Março de 1983, quando o Benfica defrontou o Roma? Aquilo é que foi uma jogatana. Tínhamos ganho lá por 1-0 e os Romanos vinham com ganas de dar a volta ao resultado. Grande jogo do Pietra. O quê?... não saltaste nenhuma vedação?! Vou-te avivar a memória Darq. Não te lembras daqueles jogos contra o Liverpool, que “cabazada” levamos, contra U. Craiova, ao Olympiakos demos três secos; golos de Filipovic, Diamantino e Maniche, contra o Sampdoria, contra..., o quê?...não te lembras? Afinal, tu, também não és meu clone!

  Fecham de novo as cortinas. Depois de abertas só lá estão dois espelhos.

- 3.º Acto. –

  Marius70, aborrecido, dirige-se ao 3.º espelho.

- Angol, é só decepções!... por duas vezes me enganei!... mas tu não me enganas! Lembras-te quando jogávamos à bola na Casa Branca, ali junto à antiga lixeira? Hoje é o Roque Santeiro. Aquilo é que eram jogos, mudávamos aos cinco e acabávamos aos dez. Quando íamos ao Estádio dos Coqueiros ver as equipas do “puto” jogar. Era o Benfica, era o Porto, o Sporting, a Académica, o Varzim e aquela comunidade portuguesa deslocava-se ao Estádio para ver de perto os seus ídolos. O Eusébio, o Peres do Sporting, o Hilário, o Coluna e tantos mais. Aquilo sim... aquilo é que eram jogadores! E o Asa, o Benfica e o Sporting de Luanda nada podiam fazer contra aqueles monstros. Eram de sete para cima. O quê?... não te lembras? (mudando para o tom de voz do Tibúrcio).

Tu não te lembra da tia Mariquinha que tinha engorido cinco angorare, e médico que faz peração na bariga tirou dois e quinhenta? E do tio Paurino qui andava esconfiado. Dizia que o filho não era dere. O moço tinha duas perna verdadeira e o tio Paurino tinha uma perna de pau. E lá no S. Paulo, branco és mesmo esperto, he,he,he, fez uma rua mesmo no meio dos dois passeio. O quê também não te lembra? Já estou ficar xateado, meu! Deixa então olhar bem para ti. Afinar tu és como a Macumbina, és murer... pá!... já não vou beber mais «Cuca» nem «Nocal». Tu também não és meu clone!


  Pela terceira vez, fecham-se as cortinas. Ao abrirem-se, só se encontra no palco um espelho.

- 4.º Acto. -

  Marius70 dirige-se, cabisbaixo, para o 4.º espelho. Ao chegar a ele olha para a imagem nela reflectida. Nada diz. Lentamente, endireita-se. Passa a mão pelos parcos cabelos e pelas cãs já da cor da prata. Olha uma vez mais para aquela imagem tão sua conhecida. Imagem que durante muitos e longos anos a vê, constantemente, reflectida nos espelhos. Sorri, enquanto uma lágrima lhe desliza pela face. Tinha encontrado finalmente o seu clone. O clone... que tanto tinha procurado estava ali, à sua frente. Afinal nunca tinha deixado de ser quem era. Marius70 era, simplesmente,... Marius70, e nada mais!

  Vira-se para a plateia muda e queda. Estavam todos a viver a alegria daquele homem que tinha procurado o seu clone e o tinha encontrado.

De repente, B levanta-se, e como não tinha percebido nada da história, aquilo era de mais para a sua camioneta, agita uma bandeira e berra palavras em tons de azul: «BIBA O PORTO, CARAGO!». Procura sair rapidamente para ir à net da Empresa onde trabalha, meter mais uns quantos temas por segundo. A seu lado, K medita na peça que lhe fora dada a ver. Tinha sido enganado. Afinal não havia clone nenhum, marius70 tinha falado verdade. Ele, um homem já com tantas primaveras em cima, acreditara num fedelho e perdera um amigo. Até lhe tinha chamado palhaço. Que tristeza lhe invadia a alma. Pela última vez os seus olhares se cruzam. As cortinas começam a fechar-se lentamente.

  No fosso, a orquestra toca as últimas notas do... «Requiem para um amigo».




04.02.2003


publicado por marius70 às 16:32
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