Terça-feira, 15 de Agosto de 2006

Tocam os Sinos...



  Os sinos anunciam a saída da Procissão. Com os braços abertos, Nossa Senhora de Assunção, em frente ao porto de pesca, ao som das sereias e dos foguetes lançados das traineiras engalanadas, abençoa aqueles que no mar têm o seu ganha-pão, ou o seu leito de morte.


  Muitos anos atrás saía também a Procissão. No ar, um vagido se ouviu, mais alguém tinha nascido. Pelas cangostas andou. No antigo mercado saltou para juntar mais uma peça ao presépio; uma ovelhinha, o Menino Jesus, a Nª Senhora, o pastor... enquanto seu avô colocava mais um par de solas e, a sua companheira de uma vida, deambulava de aldeia em aldeia vendendo o que o mar dava.


  Com a sacola ao ombro e a sua lousa traçava, com pau de giz, as primeiras letras: B, A =BA.. Pela janela via o céu azul, o campo sem fim. A chuva, miudinha, caía durante semanas.

  De calção lá ia para a praia onde, feito miúdo Adão, se atirava enquanto na «Boca-do-Lobo» o mar fazia um barulho dos "diabos" e, todo o cuidado era pouco não fosse alguém ser engolido por aquela "garganta" escancarada.


  As traineiras ondulavam ao sabor das ondas e os barcos, na areia, aguardavam a chegada dos pescadores para mais uma ida ao mar. As mulheres olhavam para os seus "h'ómes" rezando com fé para que a faina corresse bem.
  "Ala-Arriba", gritavam as pescadeiras que, em conjunto com os homens, puxavam o barco com o pescado...


... que era logo ali dividido e comercializado na lota de pesca.


  Correrias, brincadeiras, ora com umas fisgadas bem “amandadas”, ora brincando de cowboys e de índios, uns jogos de bola junto à Fortaleza e, o polícia, mesmo ali a multar pois não se podia jogar descalço, no tempo em que uma sardinha alimentava quase uma família.


 O silvo de um barco atroou os ares, na amurada, as crianças viam o barco a desencostar do cais de embarque e a partir para o alto mar. No cais, lenços diziam adeus a quem partia...


 ... E, assim, se passaram horas, dias, anos!...

  Tocam os sinos, os foguetes estalejam... Vai sair a Procissão!

 Para a Poveira, minha mãe, um beijo do tamanho do mundo e desculpa ter-te feito "perder" a Festa da Assunção nesse ano!


A Poveirinha - Rancho Folclórico Poveiro


 Ala-Arriba! é uma expressão poveira que significa "força (para cima)".


15-08-2006


publicado por marius70 às 16:53
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